domingo, 30 de março de 2014

O deserto sem vento.



O garoto aparentava óbvia ansiedade.

     Deitado na poeira, pensou no pai. Ele não lembrava muito do progenitor, pois o homem partiu quando ele era muito pequeno, em uma época em que ainda havia fartura em sua casa. Isso também fora há muito esquecido, se não pela dura rotina, com certeza por causa da memória de um tempo promissor ser tão perturbadora.
     Ele não gosta dessa vida, é por isso que imagina um mundo onde ele tem poderes mágicos e pode fazer tudo o que quiser. Lá não haveria fome, pois apenas com o estalar de dois dedos abasteceria um grande jantar! Nem haveria tanto trabalho a ser feito, teria servos e possuiria vastas terras. Mas então, ele faria algo que deixaria todos de queixo caído. Iria abandonar seu palácio para viajar pelo mundo, se tornaria um mago andarilho em busca de poder. 
     Sim, a fome e a tristeza eram esquecidas quando o garoto pensava na maravilhosa magia.
 O som de um choro ranhoso interrompeu seus pensamentos. Era sua mãe. Nas noites de lua alta, ela se lembrava do marido, e chorava muitas vezes. A figura sombria e pálida apareceu na porta.
     Ele queria que seu pai morresse, pois assim ela não teria mais que esperar. E imaginou que se isso acontecesse, ela também se mataria. Então viveria sozinho, aí ia fazer o que quisesse, decidira há pouco tempo, que fugir de casa era a única coisa que restava-lhe.
     — Entre moleque! Antes que pegue um resfriado aí fora. — Apesar de fazer muito calor, ela estava com alguns trapos enrolados no pescoço.
     — Eu vou me demorar mais um pouco, depois eu entro. — Mentiu.
     —Não vá ficar ai fora a noite toda. Vou apagar o lampião, cuidado para não esbarrar em nada e me acordar. 
     Ela se virou e obscureceu a única fonte de luz, a não ser bela e presente lua cheia que iluminava o céu.
     
***

     — Entre. — Disse uma voz por trás da porta. Uma fresta de luz saía da casa.
O menino permaneceu imóvel. 
     — Entre, pelos deuses! Antes que eu me arrependa!
Então ele entrou, e viu uma casa poeirenta e toda acabada. Perguntou-se como alguém vivia no meio de tanto pó e sujeira, havia muita madeira velha e alguns potes brilhantes atraíram seu olhar; vidro.
     O velho de nariz adunco espreitou para além da rua, procurando.
     — Você não foi seguido, foi?
     — E seria seguido por quem? Todos estão morrendo nesse pedaço do inferno! Ninguém teria interesse em mim mais do que num monte de merda!
     — Tsc. Garoto, quero viver o resto dos meus dias em paz. Mas talvez antes de morrer possa te ensinar alguma coisa. 
     O velho narigudo trancou a porta e fechou os olhos. Quando ele começou a abrir os olhos, a sala foi ficando escura e, depois de alguns segundos de breu, começou a iluminar-se.
      Aos poucos ele percebeu que não era a sala que ficava mais clara, mas sim que ele abria os olhos. A sala em que estavam agora não era nada parecida com aquela em que ele havia entrado. Agora, uma grande mobília de carvalho cobria uma das paredes, uma mesa retangular com oito cadeiras exibia uma prataria disposta milimetricamente. Na parede oposta elevava-se uma estante de madeira escura que possuía incontáveis livros.
     — Feche essa boca, e antes que pergunte, isso não é bruxaria. É somente uma ilusão. O casebre que viu antes também era outra ilusão. Me diga, qual o seu nome? 
     — Alamore. E o seu?
     — Eu tive vários nomes, mas pode me chamar de Kaiszer. Não estou muito interessado em transformar você num discípulo meu, isso seria muito cansativo. Mas podemos entender algumas coisas básicas.
      Finalmente! Ele pensou. Depois de anos imaginado como seria lidar como magia, o que eu sentiria ao disparar um feitiço... E tudo isso graças a uma galinha idiota! Não... Não, Não foi uma mera coincidência, com certeza os deuses viram que em mim jaz um grande feiticeiro! E agora eu vou me tornar o melhor de todos, e — 
     — EI, garoto, está prestando atenção?! Bom, como dizia, há tempos que não realizo verdadeira mágica, para ser sincero, a última vez foi quando derramei aquela poção em você. Me surpreende que ela tenha funcionado.
     — Como assim? — perguntou Alamore — Você não sabia se aquilo ia funcionar ou não?
     — Exatamente. Em verdade, faz vinte anos que não vejo nada fora do comum acontecer. Tudo estava parado como... como... um deserto sem vento. Até aquele dia que você veio até mim e esse cenário começou a mudar. Digamos que algo ou alguém levantou um pouco de poeira nesse clima estático. 
     O garoto encarava-o lunaticamente.
     — Acho melhor prosseguirmos — arriscou — Me acompanhe.
     O velho o levou para um pouco além da sala onde havia uma estante ainda maior. No centro dessa estante havia uma parte de madeira maciça, com um símbolo talhado. Alamore identificou a representação ali gravada como um carneiro que nascia do fruto de uma árvore. Pensou em perguntar ao velho o que aquilo significava mas não queria interrompê-lo.
      Kaiszer passou o dedo por um dos ornamentos de madeira talhada, revelando uma vareta preta que estava coberta por um tecido com a mesma cor da madeira. Ele enfiou a unha pontiaguda na divisória da vareta e do móvel e puxou-a para cima elevando-a como uma fina alavanca, soltando um discreto CLICK quando ficou completamente ereta. Então ele empurrou-a para baixo até que esta ficasse apenas com alguns centímetros a mostra.
     — Me ajude a empurrar — pediu.
     Alamore colocou ambas as mãos na madeira fria e sentiu o ranger da mesma quando se deslocou alguns centímetro, primeiramente à grande custo, depois seguindo sem que precisasse fazer força. Ela já havia adentrado consideravelmente a estante, quando Alamore fez menção de segui-la e foi impedido pelo velho. Seu olhar pedia paciência. 
     Por alguns segundos nada aconteceu, então um quadrado de chão afundou vagarosamente, até que se revelasse uma porta, que foi aberta por Kaiszer.
     Entraram em um novo ambiente. Se ficara impressionado ao ver alguns potes de vidro durante toda sua vida, Alamore viu um milhar de luzes descortinar-se por inúmeras prateleiras. 
     — Uauuu...
    — É, há tempos eu não via essa cena. Todas essas poções permaneceram apagadas durante um bom tempo, e então, de repente elas se alumiam!
    — E você sabe o que cada uma delas faz? São todas tão úteis quanto aquela que me mostrou? Existe alguma que pode me fazer mais poderoso? 
      És um garoto muito animado para o mundo de sofrimento no qual vives. Donde tiras tamanha esperança? Tu és forte, criança. Mas eu, mesmo no auge do meu poder, teria medo de ti.
     — Kaiszer?
     — Estamos perdendo tempo aqui, vamos voltar. 
     E virou-se sem dizer mais nenhuma palavra.
     Ficaram horas - ou foram dias? - conversando sobre feitiçaria. O velho de nariz adunco, com seu olhar reprovador contava a Alamore histórias de antigos feiticeiros. Muitos antes já haviam passado pela mesma experiência, alguns indiferentes, outros irrequietos, mas nunca tão atenciosos e envolventes como seu atual ouvinte. Ao que parece, não só como utilizar a magia o interessava, mas também aqueles que dela um dia viveram.
     — Bem... Acho que é suficiente. — Finalizou Kaiszer, já aguardando protestos por parte do pequeno.
     — Quando retomaremos?
     — Anh... Bem, tenho algumas tarefas pendentes mas posso conseguir-lhe uma aula amanhã.
     Alamore abriu um sorriso.
     — Eu agradeço. 
     — Agora vá, criança.
     E ele foi.









sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sombra que amo


Sombra que amo

Se escrevo; me atrevo
Antes não rabisque um risco
Que mostre a ti,
fraqueza de mim!

És meu motivo
E as frivolidades...
 tu plurifica-as
Não assuste, explico:

Como disse o menino
No pequeno livro
Como ele disse? 
Brinco, nunca esqueço.

Disse que quando cativas
És responsável eternamente
Então cá estou eu
Para clamar sua incumbência

Ah sim, já me distraí
Era para contar...
Que meus pensamentos
Não vão te abandonar.

E que te encontro em tudo
E até nesse pedaço de mundo
Tua lembrança paira logo acima
É o que faz a minha linha

Sombra que amo
Não amo a forma viva
A sombra é quem me cativa
A forma resta ao meu corpo

Quem me dera separar
O que posso sentir ou passar
Já sou confuso, pasme!
Contigo então, que vexame.

Pois somente tu provocas
Em mim sentimento tão vil
Quanto a vergonha de ser
Quanto a estima de um sim

Sombra que amo
Esqueci como é encarar-te
Olho para tua sombra no chão
Receoso de perturbar-te

Sei, depois de tanta produção...
Enrolação, melação, seu vilão
Mal posso raciocinar
Um fim para isso, devo achar

E que o fim venha
Como a sombra que amo
E que não se contenha
Até que seja pleno

terça-feira, 26 de março de 2013

O segundo de paz no ano dissonante

     O sol estava se pondo, uma bela jovem estava debruçada, pousada no leito dourado de um grande campo de trigo. Mais a oeste havia algumas colinas e mais ao longe o início duma floresta. Afinal, ela estava na beirada da enorme plantação. Após levantar, viu perfeitamente o caminho pelo qual veio; seus olhos eram extremamente aguçados.
       Faltava pouco tempo para o por-do-sol, misteriosa, dirigiu-se ao coração do campo. Dançando e murmurando algo baixinho, ela seguiu um caminho estreito, conhecia bem, pois o fazia toda noite. O trigo parecia seguir sua dança, ondulando lentamente, acariciando sua nudez - ela deixara o manto que a cobria na metade da trilha. Estava radiante!
      Seu corpo era jovial. Na verdade ali se encontrava uma beleza de rara perfeição. O corpo era uma vibração em si, findando-se no meio em uma parte intocada por qualquer homem. O seios eram firmes e ligeiramente arrebitados; não havia comparação mundana a seus traços. Seus olhos eram de uma cor áurea, dourados como o mar que a cercava.
      Até sua cintura caíam feixes de cabelo castanho-louro, esses pareciam flutuar no passo gracioso do agradável trote que se tornava cada vez mais uma intensa corrida. Um abóbora intenso cobria agora seu rosto e os arredores, ela podia ver o disco  no céu começar a desaparecer, tornar-se um semicírculo, e por fim homiziar no colo das colinas. Então ela chegou ao centro.
      Havia uma área demarcada, na qual não havia nada plantado. No início de uma noite uma moça estava em pé rezando, no meio de uma plantação do vilarejo local. Ela olhou pro céu, baixou a cabeça, começava a sentir frio, então olhou para os lados; procurando...
      Apenas um lapso, mas uma pequena luz piscou ao longe. Efêmera, solitária no céu que se tornava cada vez mais negro e pintado de estrelas. Outra. E mais outra. Aos poucos, pontos distantes começaram a pulsar cada vez mais lentamente. Ela olhou aquilo maravilhada, afinal, não era sua especialidade? Já não fizera um dos Criadores o ser mais feliz? Era tal o seu poder.
     Ao mesmo tempo em que era frágil, apesar de ter toda a magnífica natureza a sua volta, ela sentia um certo vazio...
     Porque... Nesse mundo, e todos sabiam disso, o propósito ou o destino não perdoou criatura alguma que se afastou dele. Ele é egoísta. Todos que tentaram seguir seu próprio caminho, foram amaldiçoados, viraram fantasmas ou corrompidos de todas as espécies. Esses não poderiam comungar da paz de espírito e da felicidade.
     Women ainda podia enganar o destino, tamanho era o seu poder, mas ainda assim, estava de certa forma fazendo aquilo para o que foi feita. De uma maneira que apenas a poupava de males maiores, mas que estava longe da verdadeira tarefa, do potencial.
     Tudo enfim se irradiou, desde o momento em que adentrou o trigal, entrou em contato com cada planta e cada animal. Sua energia era contaminadamente boa! Sua força se espalhou e engrandeceu o trigo, mas não fez só isso, como ao seu redor e muito além várias luzes brilhavam, o local iluminou-se como se fosse dia por um instante, e então as luzes ficaram amenas. Ondas irradiavam de forma suave e desinteressada, derramando...
     Começou a retornar. Caminhava, o mais devagar possível, se tinha pressa de ir ao encontro do ar livre, voltar era terrivelmente oposto. Agora já arrastava-se, mancava de uma perna e sua respiração foi ficando cada vez mais pesada. Seguindo foi pensando, por que estava tudo tão errado? Seu sofrimento era imenso.Andou mais e mais, o fim estava bem próximo, chegou às suas roupas. Vestiu. Espiou uma última vez as estrelas, mas não aguentou e desviou o olhar.
     Latidos ao fundo.
     Com um olhar triste, abandonou o campo. Dois homens estavam esperando no início da plantação, quando ela saiu, eles agarraram-na, prenderam grilhões em suas mãos, e começaram a chamar pelos cachorros.
     — Luthier! Venha logo, seu cachorro vazado! — Berrou a plenos pulmões o sujeito de barba suja, com a face próxima do roxo, e as veias do pescoço saltando. Olhou para Women e deu um sorriso feio, precário.
     — Vamos John — Disse um outro não menos terrível — Esses bichos sabem o caminho. E você docinho, está muito abatida! Que tal um sorrisinho?
     Os olhos antes brilhantes estavam baços e vazios. Ela mal levantou a cabeça para o truculento.
     — Sua maldita... BRUXA! Não sei como faz isso, mas se fosse um pouco mais inútil, eu acabaria com a sua raça, mas daí teria que ficar escutando dos desgraçados que lucram em cima dos seus serviços. — Ele a  analisou e por fim desistiu.
     Seguiram uma trilha rudimentar a caminho dos morrotes. Depois de meia hora de caminhada e arrastamento no caso de Women, chegaram a um trecho em que a floresta se iniciava e o homem que se chamava John disse:
     — Só podemos ser amaldiçoados mesmo! Ter que fazer isso duas noites seguidas, tudo por que um fedelho está doente! — Women levantou um pouco os olhos, percebera algo mais nas palavras do idiota?
     — Seremos pagos do mesmo jeito, e estamos quase chegando.
     — Hee.. Aqui é amaldiçoado, não gosto desse lugar. — resmungou em resposta.
     O maldito está com medo, quem diria! - Pensou ela - Está tremendo, agora posso sentir! Maldito covarde, não sabe o que é a verdadeira dor, o medo mais pitoresco. Seu tamanho não é nada, é isso que mata muitos homens, eles crescem mais em corpo do que em mente, mas se deixam iludir de que são fortes por seus músculos e por serem "adultos". A mente guarda a verdadeira forma, e dentro dele agora está uma criança assustada com contos infantis. Porém... ele teria razão de temer até os ossos congelarem se soubesse o que poderia lhe esperar dentro daquela floresta.
     — Está com medinho, John? HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
     O primeiro ficou rubro, e calou-se. Já adentraram em alguns metros a floresta, o ambiente era sinistro, muito silencioso para uma floresta. Não ouviram corujas, morcegos ou ratos, nada! nem sequer a porra de um lobo. John com medo ou não, estava certo, alguma maldição jazia sobre aquele pedaço de mundo.
     Avistaram uma casinha de pedra em meio a uma pequena clareira. Amarram Women do lado da porta.
     — Onde deixei a merda da chave? — Enquanto procurava ele olhava para os lados, como se algo estivesse prestes a pular dentro do círculo de árvores e devorá-los. — Jomps, você está com a chave?!
     — Não... Mas ande logo com isso, até eu estou meio desconfortável aqui.
     — Ha.. ha... ha.. — uma voz baixa e pastosa começou a funcionar — O que vocês tanto temem? Na verdade não existe motivo real para que haja medo... — John estava procurando a chave desesperadamente. Cego de medo, não identificou a origem do som.
     — Eu não costumo falar muito, não? — Era a bruxa que falava, agora encarava os dois. — Mas vocês são tão pobres... Em vários sentidos, só não são tão miseráveis por causa do comércio podre que nutrem! Mas medo de morrer é algo estúpido, morrer é fácil, ter medo disso, é como temer o sol ou a lua. Eles sempre vêm... Agora existem coisas muito piores que a morte, sim, eu lhes digo! Pragas tão terríveis que a morte seria uma benção.
     — ACHEI! — Ele abriu a porta, quase caindo ao fazê-lo, agarrou a mulher e jogou-a lá dentro.A porta bateu com peso de ferro. Passaram cadeados e saíram correndo.
     A pior, com certeza... Eu, Women, aquela que tranquiliza e espalha o amor entre todos. Esse é meu dever e minha vida. Eu, a mesma que já uniu nações em guerra, acabo de promover a discórdia. Eu só queria que você estivesse aqui, Carlile.
     

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sórri Lua



 Sórri Lua

Sórri Lua, meu prazer é estar contigo

És tão plena, intangível fruto da vida

Poderosa meretriz dos ventos, ninfa.

Vampira das forças dos mortais sofridos


Precursora do prazer, do ápice negro

devasta laços, martiriza assassinos

Não ouve os clamores, gritos ou sonetos:

Misericórdia! Infinito és teu vício!


Sórri Lua! Segues porém, incompreendida

A cada pacto que firmas, definhas-te

Esvaecendo a passos, a tua lúgubre paz

A cada grão de amor sujo, definhas-te


*Sórri = Ria, expressão cunhada por minha sobrinha, ao conjugar o verbo "rir".

domingo, 11 de novembro de 2012

Acorde Alamore


Se eles estão longe não se pode dizer. Talvez estejam perto. Talvez estejam muito longe. Atrás da primeira colina, em uma pequena floresta. Provavelmente em um lugar distante da civilização, agora me parece mais adequado que fujam para o espaço. Sim...

            Se as criaturas mágicas estão vivas e por aí, como dizer? As criaturas não-mágicas estão se afastando, quiçá as mágicas? Porém, como dizer se alguém está dando por falta. E assim, sem resposta esse mundo vai ficar, onde se foi? Por onde anda a magia? Longe... Distante...

            Mas espere, será que alguma vez elas já estiveram mais perto? Talvez sim.


            Uma árvore como qualquer uma cresce em um quintal de uma pequena cidade, está bem verde, apesar de fazer alguns dias que não chove. A região mais propícia para o seu cultivo é mais ao sul, porém ai está ela. Aparentemente bonita. O vento faz leves movimentos nas suas folhas mais periféricas.

            Ela fica ali, sem se dar conta do nem revelar-se a todos conscientemente. Parece um pouco descolada perante as outras árvores, mas tudo bem, é apenas um pequeno quintal, nada além disso... A cada dia suas raízes cavam mais o solo, crescem mais rápido do que uma planta normal -  o único detalhe que a difere de qualquer planta.

            A terra do local possuía de fato algo diferente, porém que não era notado pelos moradores, a não ser uma cachorra, porém até a cadela já tinha se acostumado. Porém, o a terra emanava pequena – mas certa -  quantidade de magia. Mas não era uma magia totalmente pura, parecia que alguma poderosa barreira a bloqueava, mas ainda sim um pouco dessa mística atravessava o imponente empecilho e chegava a superfície. Esse é o começo de um conto que foi passado de geração em geração de forma sigilosa e desconhecida, até que um dia... um dos escritores decidiu conta-la, sem saber de onde havia tirado aquilo.


Episódio 1 – O Alcance

            Uma macieira crescia há poucos meses em um quintal de tamanho mediano. Tímida, discreta e apesar de estar cada dia consumindo mais da terra e abrindo sua copa, tentava a todo custo passar-se como mais uma simples árvore. Era seu desejo? Desejo de todos que soubessem. Para protegê-la.

            Ordinária, simples e a mercê de qualquer praga ela parecia, e ainda parece aos meus olhos. De tão frívola se torna importante, essencial. Existem vários guardiões nesse mundo, o mundo que engloba todos os outros... Todos eles fazem sua parte como fazem os verdadeiros profetas e os contadores errantes. Mais uma guardiã, nesse caso, algo a mais do que uma simples guardiã, essa humilde árvore tinha o poder de despertar o que ela protegia e guardava.

            E no fundo de sua magia, simplesmente assim, seu nome era Kahn. Não sabia ao certo por quem havia sido criada, ou se tinha sido apenas uma vontade das peças místicas da vida. Mas como todo ser que tem uma missão, isso não importava, existia apenas um objetivo, um foco, um almejar. A ambição de todo guardião e destinado – dar a vida se encontra como item menos importante da lista, perder a vida é apenas uma entre muitas das coisas que os destinados fazem para cumprir seu destino – é tão forte que dizem que se pudesse ser extraída seria a força mais poderosa que esse mundo já viu, e ainda dentro deles, é esplendorosa.

            Kahn iria alcançar. Fora feita para isso. Então desde quando foi colocada na terra por ajuda de sabe-se-lá-quem começou a cavar e se enraizar de modo cada vez mais profundo. Mantendo um equilíbrio tênue de magia no local. Ultimamente o mundo estava desregulado. Fora de sincronismo e de balanço. Havia mais grãos de areia e menos estrelas, o ambiente fértil para a discórdia.

            Com o cair da noite seu trabalho se intensificava, ficava mais fácil, as fontes mágicas eram mais abundantes e ela chamava menos atenção de qualquer ser que pudesse farejar sua existência. Tudo isso lá dentro... Nas profundezas de um ser que além de ser feito para cumprir sua tarefa, também fora feito para desconhecê-la.

            Era uma progressão cada vez mais difícil, apesar de que quanto mais suas raízes desciam, maior era a fonte de recursos mágicos de que dispunha, a barreira a qual ela tentava transpor se tornava mais rija e arda de ser penetrada. Tudo bem, ainda havia tempo, tinha de haver. Já esperaram tanto até ter uma pequena quantidade de matriz – o mesmo que magia, mas nesse caso uma mais antiga e sacra – para que ela fosse criada, e não faria mal se esperassem mais um pouco. Não sabia como tinha conhecimento de que a magia havia sido escassa até então, só agora estava retornando e em maior parte por que ela a estava libertando. Fazia parte da sua natureza, podia sentir fontes de matriz muito maiores do que aquela que tentava alcançar, mas todas adormecidas. Paciência, sua meta era a fonte que residia abaixo dela, as outras não importavam. Por hora.

            Na maior parte do tempo ficava entorpecida e desfalecida nas profundezas de uma consciência paralela. Porém nas pontas de suas raízes algo acontecia...

            A raízes já tinham chegado a um ponto crucial na tarefa da inocente macieira, na tarefa de Kahn, que parecia mais próxima de ser realizada do que nunca. A barreira estava resistindo ao máximo, amaldiçoados os responsáveis por ela! Porém a parte inferior de Kahn não apenas imergia cada vez mais fundo, como também ia sugando a magia. E a barreira que parecia intransponível começou a fraquejar cada vez mais. Nesse momento Kahn tomou consciência de si, ao mesmo tempo em que um ser estranho observava sua extremidade inferior despontar em uma câmara. Uma criatura que ficou adormecida durante anos despertou, como tudo o que havia sido encantado pelo toque de Kahn. Esse ser escutou algo claro e alto em sua mente: 
     — Acorde Alamore!          

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A procura



   
     A sede por mágica sempre corrompeu corações. Mágica não é para todo mundo, consulte seu médico antes de utilizar.

     O jovem teve um dia muito conturbado. Foi assim:


     Sua mãe havia lhe pedido para que vendesse algumas galinhas pela cidade. Era uma cidade pequena, quase chegava a ser uma vila. Havia muitos espaços entre as casas, aliás, mais precisamente: casebres. 

     Ele saiu com um carrinho, as galinhas ficavam dentro da gaiola. Ele conhecia os compradores fiéis, então rapidamente vendeu quase todas. Quando faltavam apenas duas galinhas a serem vendidas ele deixou o a gaiola em sua casa, e se dirigiu a cidade; já tinha vendido a todos os conhecidos e até a alguns que não compravam sempre. 

     Resolveu então ir para mais longe de casa, em um lado da cidade que ele não ia muito, apesar dela ser pequena. Finalmente conseguiu vender uma galinha para uma velhinha a qual ele parecia nunca ter visto, mas tudo bem, pois agora faltava apenas uma galinha. 

     Conforme foi andando percebeu o quanto ele não tinha prestado atenção naquela pequena região, apesar de sempre passar por ali quando ia no vilarejo vizinho. Então em sua distração a galinha lhe escapou e começou a correr, não na direção do fim da cidade, mas fugindo pelo meio das casas. 

     Ele começou a correr atrás dela, mas no primeiro obstáculo ela já tomou certa vantagem. Ela voou por cima de um muro alto, e o jovem teve que pegar outro atalho. "Maldita galinha" pensou. 

     Esse logradouro tinha casas mais simples, como se fosse possível diante das outras casas. O garoto estava quase alcançando a galinha quando ela voou por cima de uma escada - o que ele acompanharia facilmente - mas quando ele preparou para dar o salto e pegá-la... "Você é minha"

     Quando estava no ar, uma velha mão, porém extremamente ágil saiu da porta que dava para a escada e agarrou a galinha, entrando furtivamente na casa. O menino se esborrachou em uma carroça que continha estrume do gado.

     Enquanto ele se levantava agradecendo por ter caído em algo macio - apenas nos primeiros instantes antes de perceber - escutou alguém dizendo "Acho que consegui meu almoço".

     "AHHHHHHHHHHHHHHH!!! MAS QUE DROGA!" foi o que a pessoa que estava na casa escutou. Então a porta se abriu a tempo de se ver um garoto cuspindo merda de vaca. Apesar do garoto estar praguejando o velho se inclinou: 

     — Tudo bem garoto? - Arriscou.

     — Tudo bem?! O senhor É LOUCO?! EIIIII, ESPERE, eeessaa galinha é miinnha!!

     — Bom, ela pode ter sido sua, mas agora é minha. E agora, pare de ficar gritando em frente a minha casa.
     O menino encarou-o, incrédulo.
     — É melhor me devolver essa galinha seu velho idiota! — e dizendo isso lançou-se por cima do velho que num instante fechou-lhe a porta na cara, imprimindo na testa do garoto um enorme galo. Ele berrou.
     — AIIIIIII! aiaiai... — apesar de reprimidas à todo custo, lágrimas gordas brotaram de seus olhos. — Me devolve, eu preciso vendê-las senão vou apanhar, senão... senão...
     O velho reabriu a porta timidamente, como quem não tomava para si a culpa dos lamentos da criança. Depois de ouvir vários soluços, ajudou o menino a se levantar.
     — Devolva minha galinha... — este resmungou. 
     — Já disse, ela é o meu jantar, eu peguei-a. Não parece justo? 
     — Justo? — o juvenil agarrou a gola da camisa do velho que era praticamente da sua altura. — justo? O que esse lugar tem de justo?
     — Olha garoto... 
     Ia responder que um velho não tinha mais tanta força para sair caçando, muito menos para trabalhar e arranjar algum ordenado, mas seus olhos cobiçaram um brilho dentro da sua própria manga.
     — O quê? Esse velho está caducando...
     O ancião recuou. 
     — Entre aqui, eu posso dar um jeito nisso. - E dizendo isso ele entrou na casa.

     — Ei? Aonde você vai? Mas que droga.

     Ele se livrou do excesso de adubo, estava prestes a colocar o pé direito dentro da casa quando o velho fez um sinal para que parasse. 

     — Não se atreva; é melhor que não entre. Esqueci que pode sujar a casa. Fique parado aí, já volto.

     Como estava acostumado a seguir ordens ficou onde estava. Alguns minutos depois o velho voltou, o garoto estava limpando-se da melhor forma possível, a sua camisa estava jogada no fim da escada. O homem arquejou:

     — Não tire a camisa! - E antes que o menino respondesse - É mágica.

     — Mágica...? - Os olhos brilharam - Quéquequer dizerrr, mágica mesmo?

     — Sim, ponha a camisa que eu vou demonstrar. - Aparentemente ele ficaria feliz em demonstrar uma arte tão perdida para uma criança, mas não gostou do que viu nos olhos do infanto, já tinha visto aquele olhar em algum lugar.

     O menino parecia hipnotizado. Colocou a camisa suja e esperou ansiosamente.

     O velho revelou um pequeno frasco o qual ele escondia atrás das costas. Com uma mão ele destampou e com a outra ele elevou o frasco e o derramou o líquido em movimentos circulares acima da cabeça do abismado observador. O líquido esfumaçado desceu lentamente, formando arcos em seu trajeto. Era azul brilhante, e estava se difundindo em uma fumaça azul-clara. O velho sentiu como se tivesse levado um minuto inteiro para que os pequenos pontos que sobraram do líquido tocassem o chão.

     — Uuuuaaauuu.... - Disse o jovem enquanto todo o pequeno espetáculo se desenvolvia.

     Percebeu que suas roupas estavam completamente limpas; ele próprio estava cheiroso e limpo!

     — Incrível!! Como você fez isso? AHHH por favor, pode ficar com a galinha, mas ME ENSINE! Me ensine a ser um mago! 

     O velho não respondeu, apenas ficou em silêncio. Sim... Realmente, já havia visto aquele olhar, talvez fosse algo impossível de se esquecer.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A guardiã



        O suave som de uma chuva a cair enfeitava o local. Entre árvores e árvores ali estava um pequeno riacho de água cristalina, cintilando aos feixes de luz que se fortaleciam com o passar do tempo.

         Existiam pequenas pedras no local, a maioria delas brancas, estavam acolchoadas a uma grama irregular e verde que dividia sua tarefa de cobrir a terra com plantas pequenas.

         O ar era úmido e o cheiro da terra inundava o ambiente. A luz começava a aparecer com mais força, uma árvore grande, mas não tão grande, cercava o riacho. Iluminavam-se as plantas e pedras fazendo a chuva recuar, e por fim, cessar.

         A harmonia do local era notável, e os movimentos se iniciaram com o vento. O derrubar de folhas, as ondulações na grama. E por fim vários sons pareciam sair do minúsculo chiado do rio. O som de um canto distante, a cantiga de um espírito passageiro. Um espírito que vaga por toda a existência, que sente tudo por onde passa.

         Aos poucos os instrumentos ficariam nítidos para qualquer um; a sinfonia da paz.

         Mas ainda era manhazinha, o orvalho acabara de sair da escuridão da noite. Vapor d’água no ar, indicando que o amanhecer acabara de ocorrer. Fazia frio, mas as plantas pareciam não se incomodar, estavam acostumadas a ficarem ali, esperando intactas.

         Ali se localizava a nascente do maior rio, um lugar totalmente intocável. O máximo perto que uma criatura mágica já chegara perto dali tinha sido um longe tão distante quando as estrelas dos nossos olhos.

         Porém, na margem do projeto de rio, estava uma criança com frio, bebendo a pura água...

         Estava descalça e nua, e, quando ela sentiu que poderia estar atrapalhando, houve uma reviravolta naquele pequeno mundinho, o céu passou de claro para preto, as estrelas lançaram-se no céu, e a lua lhe deu um manto com o qual se cobrir.

         O orvalho se fez confuso com o cessar da luz. E a chuva que se distanciava voltou a cair.

         A criança começou a se molhar, estava abaixada, abraçando as pernas contra o corpo. Não queria ter feito aquilo, não queria estragar nada dali.

         Então ela se lembrou que não estava mais sozinha, finalmente tinha chegado para onde quis fugir sempre. E ali, não se sentia sozinha, pois não teria como ser de outro jeito. Em um quando e onde no qual só existia ela.

         O breve movimento da boca se tornou rapidamente em um sorriso e depois na mais verdadeira e agradável gargalhada. Afinal, estava lá.

         Decidiu continuar ali por toda a eternidade. Tão simples, protegeria o que lhe era mais importante: Sua paz. A paz buscada, que contrastava com tanto sofrimento, o que nunca mais lhe passou pela cabeça, então coube a um profeta dizer:

         —Quando chegar ao paraíso não haverá mais medo, não haverá sofrimento. As mortes presenciadas. O poder de armas cruéis, nas mãos de pessoas mais cruéis. A tristeza eterna, desaparecerá. E lá ela permanecerá. E será apenas ela! Nunca merecerão deixar suas auras impuras sobre tal solo sagrado. Hei de profetizar o maior prazer e eterno júbilo de um ser.

         A moça, sentou-se perante o riacho, olhou em suas águas, e antes de providenciar a anunciação da chegada tão esperada, - mas nem tão reconhecida por todos os mundos – lembrou-se da criança que havia sido. A primeira noite, quando estava confusa. Assustando o orvalho.