domingo, 11 de novembro de 2012

Acorde Alamore


Se eles estão longe não se pode dizer. Talvez estejam perto. Talvez estejam muito longe. Atrás da primeira colina, em uma pequena floresta. Provavelmente em um lugar distante da civilização, agora me parece mais adequado que fujam para o espaço. Sim...

            Se as criaturas mágicas estão vivas e por aí, como dizer? As criaturas não-mágicas estão se afastando, quiçá as mágicas? Porém, como dizer se alguém está dando por falta. E assim, sem resposta esse mundo vai ficar, onde se foi? Por onde anda a magia? Longe... Distante...

            Mas espere, será que alguma vez elas já estiveram mais perto? Talvez sim.


            Uma árvore como qualquer uma cresce em um quintal de uma pequena cidade, está bem verde, apesar de fazer alguns dias que não chove. A região mais propícia para o seu cultivo é mais ao sul, porém ai está ela. Aparentemente bonita. O vento faz leves movimentos nas suas folhas mais periféricas.

            Ela fica ali, sem se dar conta do nem revelar-se a todos conscientemente. Parece um pouco descolada perante as outras árvores, mas tudo bem, é apenas um pequeno quintal, nada além disso... A cada dia suas raízes cavam mais o solo, crescem mais rápido do que uma planta normal -  o único detalhe que a difere de qualquer planta.

            A terra do local possuía de fato algo diferente, porém que não era notado pelos moradores, a não ser uma cachorra, porém até a cadela já tinha se acostumado. Porém, o a terra emanava pequena – mas certa -  quantidade de magia. Mas não era uma magia totalmente pura, parecia que alguma poderosa barreira a bloqueava, mas ainda sim um pouco dessa mística atravessava o imponente empecilho e chegava a superfície. Esse é o começo de um conto que foi passado de geração em geração de forma sigilosa e desconhecida, até que um dia... um dos escritores decidiu conta-la, sem saber de onde havia tirado aquilo.


Episódio 1 – O Alcance

            Uma macieira crescia há poucos meses em um quintal de tamanho mediano. Tímida, discreta e apesar de estar cada dia consumindo mais da terra e abrindo sua copa, tentava a todo custo passar-se como mais uma simples árvore. Era seu desejo? Desejo de todos que soubessem. Para protegê-la.

            Ordinária, simples e a mercê de qualquer praga ela parecia, e ainda parece aos meus olhos. De tão frívola se torna importante, essencial. Existem vários guardiões nesse mundo, o mundo que engloba todos os outros... Todos eles fazem sua parte como fazem os verdadeiros profetas e os contadores errantes. Mais uma guardiã, nesse caso, algo a mais do que uma simples guardiã, essa humilde árvore tinha o poder de despertar o que ela protegia e guardava.

            E no fundo de sua magia, simplesmente assim, seu nome era Kahn. Não sabia ao certo por quem havia sido criada, ou se tinha sido apenas uma vontade das peças místicas da vida. Mas como todo ser que tem uma missão, isso não importava, existia apenas um objetivo, um foco, um almejar. A ambição de todo guardião e destinado – dar a vida se encontra como item menos importante da lista, perder a vida é apenas uma entre muitas das coisas que os destinados fazem para cumprir seu destino – é tão forte que dizem que se pudesse ser extraída seria a força mais poderosa que esse mundo já viu, e ainda dentro deles, é esplendorosa.

            Kahn iria alcançar. Fora feita para isso. Então desde quando foi colocada na terra por ajuda de sabe-se-lá-quem começou a cavar e se enraizar de modo cada vez mais profundo. Mantendo um equilíbrio tênue de magia no local. Ultimamente o mundo estava desregulado. Fora de sincronismo e de balanço. Havia mais grãos de areia e menos estrelas, o ambiente fértil para a discórdia.

            Com o cair da noite seu trabalho se intensificava, ficava mais fácil, as fontes mágicas eram mais abundantes e ela chamava menos atenção de qualquer ser que pudesse farejar sua existência. Tudo isso lá dentro... Nas profundezas de um ser que além de ser feito para cumprir sua tarefa, também fora feito para desconhecê-la.

            Era uma progressão cada vez mais difícil, apesar de que quanto mais suas raízes desciam, maior era a fonte de recursos mágicos de que dispunha, a barreira a qual ela tentava transpor se tornava mais rija e arda de ser penetrada. Tudo bem, ainda havia tempo, tinha de haver. Já esperaram tanto até ter uma pequena quantidade de matriz – o mesmo que magia, mas nesse caso uma mais antiga e sacra – para que ela fosse criada, e não faria mal se esperassem mais um pouco. Não sabia como tinha conhecimento de que a magia havia sido escassa até então, só agora estava retornando e em maior parte por que ela a estava libertando. Fazia parte da sua natureza, podia sentir fontes de matriz muito maiores do que aquela que tentava alcançar, mas todas adormecidas. Paciência, sua meta era a fonte que residia abaixo dela, as outras não importavam. Por hora.

            Na maior parte do tempo ficava entorpecida e desfalecida nas profundezas de uma consciência paralela. Porém nas pontas de suas raízes algo acontecia...

            A raízes já tinham chegado a um ponto crucial na tarefa da inocente macieira, na tarefa de Kahn, que parecia mais próxima de ser realizada do que nunca. A barreira estava resistindo ao máximo, amaldiçoados os responsáveis por ela! Porém a parte inferior de Kahn não apenas imergia cada vez mais fundo, como também ia sugando a magia. E a barreira que parecia intransponível começou a fraquejar cada vez mais. Nesse momento Kahn tomou consciência de si, ao mesmo tempo em que um ser estranho observava sua extremidade inferior despontar em uma câmara. Uma criatura que ficou adormecida durante anos despertou, como tudo o que havia sido encantado pelo toque de Kahn. Esse ser escutou algo claro e alto em sua mente: 
     — Acorde Alamore!          

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