O sol estava se pondo, uma
bela jovem estava debruçada, pousada no leito dourado de um grande campo de
trigo. Mais a oeste havia algumas colinas e mais ao longe o início duma
floresta. Afinal, ela estava na beirada da enorme plantação. Após levantar, viu
perfeitamente o caminho pelo qual veio; seus olhos eram extremamente aguçados.
Faltava pouco tempo para o por-do-sol, misteriosa, dirigiu-se ao coração
do campo. Dançando e murmurando algo baixinho, ela seguiu um caminho estreito,
conhecia bem, pois o fazia toda noite. O trigo parecia seguir sua dança,
ondulando lentamente, acariciando sua nudez - ela deixara o manto que a cobria
na metade da trilha. Estava radiante!
Seu
corpo era jovial. Na verdade ali se encontrava uma beleza de rara perfeição. O
corpo era uma vibração em si, findando-se no meio em uma parte intocada por
qualquer homem. O seios eram firmes e ligeiramente arrebitados; não
havia comparação mundana a seus traços. Seus olhos eram de uma cor áurea,
dourados como o mar que a cercava.
Até sua
cintura caíam feixes de cabelo castanho-louro, esses pareciam flutuar no passo
gracioso do agradável trote que se tornava cada vez mais uma intensa corrida.
Um abóbora intenso cobria agora seu rosto e os arredores, ela podia ver o disco
no céu começar a desaparecer, tornar-se um semicírculo, e por fim
homiziar no colo das colinas. Então ela chegou ao centro.
Havia
uma área demarcada, na qual não havia nada plantado. No início de uma noite uma
moça estava em pé rezando, no meio de uma plantação do vilarejo local. Ela
olhou pro céu, baixou a cabeça, começava a sentir frio, então olhou para os
lados; procurando...
Apenas
um lapso, mas uma pequena luz piscou ao longe. Efêmera, solitária no céu que se
tornava cada vez mais negro e pintado de estrelas. Outra. E mais outra. Aos
poucos, pontos distantes começaram a pulsar cada vez mais lentamente. Ela olhou
aquilo maravilhada, afinal, não era sua especialidade? Já não fizera um dos
Criadores o ser mais feliz? Era tal o seu poder.
Ao mesmo
tempo em que era frágil, apesar de ter toda a magnífica natureza a sua volta, ela
sentia um certo vazio...
Porque... Nesse mundo, e todos sabiam disso, o propósito ou o
destino não perdoou criatura alguma que se afastou dele. Ele é egoísta.
Todos que tentaram seguir seu próprio caminho, foram amaldiçoados, viraram
fantasmas ou corrompidos de todas as espécies. Esses não poderiam comungar da
paz de espírito e da felicidade.
Women
ainda podia enganar o destino, tamanho era o seu poder, mas ainda assim, estava
de certa forma fazendo aquilo para o que foi feita. De uma maneira que apenas a
poupava de males maiores, mas que estava longe da verdadeira tarefa, do
potencial.
Tudo
enfim se irradiou, desde o momento em que adentrou o trigal, entrou em contato
com cada planta e cada animal. Sua energia era contaminadamente boa! Sua força
se espalhou e engrandeceu o trigo, mas não fez só isso, como ao seu redor e
muito além várias luzes brilhavam, o local iluminou-se como se fosse dia por um
instante, e então as luzes ficaram amenas. Ondas irradiavam de forma suave e
desinteressada, derramando...
Começou
a retornar. Caminhava, o mais devagar possível, se tinha pressa de ir ao
encontro do ar livre, voltar era terrivelmente oposto. Agora já arrastava-se,
mancava de uma perna e sua respiração foi ficando cada vez mais pesada.
Seguindo foi pensando, por que estava tudo tão errado? Seu sofrimento era
imenso.Andou mais e mais, o fim
estava bem próximo, chegou às suas roupas. Vestiu. Espiou uma última vez as
estrelas, mas não aguentou e desviou o olhar.
Latidos
ao fundo.
Com um olhar triste,
abandonou o campo. Dois homens estavam esperando no início da plantação, quando
ela saiu, eles agarraram-na, prenderam grilhões em suas mãos, e começaram a
chamar pelos cachorros.
—
Luthier! Venha logo, seu cachorro vazado! — Berrou a plenos pulmões o sujeito
de barba suja, com a face próxima do roxo, e as veias do pescoço saltando.
Olhou para Women e deu um sorriso feio, precário.
— Vamos
John — Disse um outro não menos terrível — Esses bichos sabem o caminho. E você
docinho, está muito abatida! Que tal um sorrisinho?
Os olhos
antes brilhantes estavam baços e vazios. Ela mal levantou a cabeça para o
truculento.
— Sua
maldita... BRUXA! Não sei como faz isso, mas se fosse um pouco mais inútil, eu
acabaria com a sua raça, mas daí teria que ficar escutando dos desgraçados que
lucram em cima dos seus serviços. — Ele a analisou e por fim desistiu.
Seguiram
uma trilha rudimentar a caminho dos morrotes. Depois de meia hora de caminhada
e arrastamento no caso de Women, chegaram a um trecho em que a floresta se
iniciava e o homem que se chamava John disse:
— Só
podemos ser amaldiçoados mesmo! Ter que fazer isso duas noites seguidas, tudo
por que um fedelho está doente! — Women levantou um pouco os olhos, percebera
algo mais nas palavras do idiota?
—
Seremos pagos do mesmo jeito, e estamos quase chegando.
— Hee..
Aqui é amaldiçoado, não gosto desse lugar. — resmungou em resposta.
O
maldito está com medo, quem diria! - Pensou ela - Está tremendo, agora posso sentir!
Maldito covarde, não sabe o que é a verdadeira dor, o medo mais pitoresco. Seu
tamanho não é nada, é isso que mata muitos homens, eles crescem mais em corpo
do que em mente, mas se deixam iludir de que são fortes por seus músculos e por
serem "adultos". A mente guarda a verdadeira forma, e dentro dele
agora está uma criança assustada com contos infantis. Porém... ele teria razão
de temer até os ossos congelarem se soubesse o que poderia lhe esperar dentro
daquela floresta.
— Está
com medinho, John? HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
O
primeiro ficou rubro, e calou-se. Já adentraram em alguns metros a floresta, o
ambiente era sinistro, muito silencioso para uma floresta. Não ouviram corujas,
morcegos ou ratos, nada! nem sequer a porra de um lobo. John com medo ou não,
estava certo, alguma maldição jazia sobre aquele pedaço de mundo.
Avistaram uma casinha de pedra em meio a uma pequena clareira. Amarram
Women do lado da porta.
— Onde
deixei a merda da chave? — Enquanto procurava ele olhava para os lados, como se
algo estivesse prestes a pular dentro do círculo de árvores e devorá-los. —
Jomps, você está com a chave?!
— Não...
Mas ande logo com isso, até eu estou meio desconfortável aqui.
— Ha..
ha... ha.. — uma voz baixa e pastosa começou a funcionar — O que vocês tanto
temem? Na verdade não existe motivo real para que haja medo... — John estava
procurando a chave desesperadamente. Cego de medo, não identificou a origem do
som.
— Eu não
costumo falar muito, não? — Era a bruxa que falava, agora encarava os dois. —
Mas vocês são tão pobres... Em vários sentidos, só não são tão miseráveis por
causa do comércio podre que nutrem! Mas medo de morrer é algo estúpido, morrer
é fácil, ter medo disso, é como temer o sol ou a lua. Eles sempre vêm... Agora
existem coisas muito piores que a morte, sim, eu lhes digo! Pragas tão
terríveis que a morte seria uma benção.
— ACHEI!
— Ele abriu a porta, quase caindo ao fazê-lo, agarrou a mulher e jogou-a lá
dentro.A porta bateu com peso de ferro. Passaram cadeados e saíram correndo.
A
pior, com certeza... Eu, Women, aquela que tranquiliza e espalha o amor entre
todos. Esse é meu dever e minha vida. Eu, a mesma que já uniu nações em guerra,
acabo de promover a discórdia. Eu só queria que você estivesse aqui, Carlile.