terça-feira, 26 de março de 2013

O segundo de paz no ano dissonante

     O sol estava se pondo, uma bela jovem estava debruçada, pousada no leito dourado de um grande campo de trigo. Mais a oeste havia algumas colinas e mais ao longe o início duma floresta. Afinal, ela estava na beirada da enorme plantação. Após levantar, viu perfeitamente o caminho pelo qual veio; seus olhos eram extremamente aguçados.
       Faltava pouco tempo para o por-do-sol, misteriosa, dirigiu-se ao coração do campo. Dançando e murmurando algo baixinho, ela seguiu um caminho estreito, conhecia bem, pois o fazia toda noite. O trigo parecia seguir sua dança, ondulando lentamente, acariciando sua nudez - ela deixara o manto que a cobria na metade da trilha. Estava radiante!
      Seu corpo era jovial. Na verdade ali se encontrava uma beleza de rara perfeição. O corpo era uma vibração em si, findando-se no meio em uma parte intocada por qualquer homem. O seios eram firmes e ligeiramente arrebitados; não havia comparação mundana a seus traços. Seus olhos eram de uma cor áurea, dourados como o mar que a cercava.
      Até sua cintura caíam feixes de cabelo castanho-louro, esses pareciam flutuar no passo gracioso do agradável trote que se tornava cada vez mais uma intensa corrida. Um abóbora intenso cobria agora seu rosto e os arredores, ela podia ver o disco  no céu começar a desaparecer, tornar-se um semicírculo, e por fim homiziar no colo das colinas. Então ela chegou ao centro.
      Havia uma área demarcada, na qual não havia nada plantado. No início de uma noite uma moça estava em pé rezando, no meio de uma plantação do vilarejo local. Ela olhou pro céu, baixou a cabeça, começava a sentir frio, então olhou para os lados; procurando...
      Apenas um lapso, mas uma pequena luz piscou ao longe. Efêmera, solitária no céu que se tornava cada vez mais negro e pintado de estrelas. Outra. E mais outra. Aos poucos, pontos distantes começaram a pulsar cada vez mais lentamente. Ela olhou aquilo maravilhada, afinal, não era sua especialidade? Já não fizera um dos Criadores o ser mais feliz? Era tal o seu poder.
     Ao mesmo tempo em que era frágil, apesar de ter toda a magnífica natureza a sua volta, ela sentia um certo vazio...
     Porque... Nesse mundo, e todos sabiam disso, o propósito ou o destino não perdoou criatura alguma que se afastou dele. Ele é egoísta. Todos que tentaram seguir seu próprio caminho, foram amaldiçoados, viraram fantasmas ou corrompidos de todas as espécies. Esses não poderiam comungar da paz de espírito e da felicidade.
     Women ainda podia enganar o destino, tamanho era o seu poder, mas ainda assim, estava de certa forma fazendo aquilo para o que foi feita. De uma maneira que apenas a poupava de males maiores, mas que estava longe da verdadeira tarefa, do potencial.
     Tudo enfim se irradiou, desde o momento em que adentrou o trigal, entrou em contato com cada planta e cada animal. Sua energia era contaminadamente boa! Sua força se espalhou e engrandeceu o trigo, mas não fez só isso, como ao seu redor e muito além várias luzes brilhavam, o local iluminou-se como se fosse dia por um instante, e então as luzes ficaram amenas. Ondas irradiavam de forma suave e desinteressada, derramando...
     Começou a retornar. Caminhava, o mais devagar possível, se tinha pressa de ir ao encontro do ar livre, voltar era terrivelmente oposto. Agora já arrastava-se, mancava de uma perna e sua respiração foi ficando cada vez mais pesada. Seguindo foi pensando, por que estava tudo tão errado? Seu sofrimento era imenso.Andou mais e mais, o fim estava bem próximo, chegou às suas roupas. Vestiu. Espiou uma última vez as estrelas, mas não aguentou e desviou o olhar.
     Latidos ao fundo.
     Com um olhar triste, abandonou o campo. Dois homens estavam esperando no início da plantação, quando ela saiu, eles agarraram-na, prenderam grilhões em suas mãos, e começaram a chamar pelos cachorros.
     — Luthier! Venha logo, seu cachorro vazado! — Berrou a plenos pulmões o sujeito de barba suja, com a face próxima do roxo, e as veias do pescoço saltando. Olhou para Women e deu um sorriso feio, precário.
     — Vamos John — Disse um outro não menos terrível — Esses bichos sabem o caminho. E você docinho, está muito abatida! Que tal um sorrisinho?
     Os olhos antes brilhantes estavam baços e vazios. Ela mal levantou a cabeça para o truculento.
     — Sua maldita... BRUXA! Não sei como faz isso, mas se fosse um pouco mais inútil, eu acabaria com a sua raça, mas daí teria que ficar escutando dos desgraçados que lucram em cima dos seus serviços. — Ele a  analisou e por fim desistiu.
     Seguiram uma trilha rudimentar a caminho dos morrotes. Depois de meia hora de caminhada e arrastamento no caso de Women, chegaram a um trecho em que a floresta se iniciava e o homem que se chamava John disse:
     — Só podemos ser amaldiçoados mesmo! Ter que fazer isso duas noites seguidas, tudo por que um fedelho está doente! — Women levantou um pouco os olhos, percebera algo mais nas palavras do idiota?
     — Seremos pagos do mesmo jeito, e estamos quase chegando.
     — Hee.. Aqui é amaldiçoado, não gosto desse lugar. — resmungou em resposta.
     O maldito está com medo, quem diria! - Pensou ela - Está tremendo, agora posso sentir! Maldito covarde, não sabe o que é a verdadeira dor, o medo mais pitoresco. Seu tamanho não é nada, é isso que mata muitos homens, eles crescem mais em corpo do que em mente, mas se deixam iludir de que são fortes por seus músculos e por serem "adultos". A mente guarda a verdadeira forma, e dentro dele agora está uma criança assustada com contos infantis. Porém... ele teria razão de temer até os ossos congelarem se soubesse o que poderia lhe esperar dentro daquela floresta.
     — Está com medinho, John? HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
     O primeiro ficou rubro, e calou-se. Já adentraram em alguns metros a floresta, o ambiente era sinistro, muito silencioso para uma floresta. Não ouviram corujas, morcegos ou ratos, nada! nem sequer a porra de um lobo. John com medo ou não, estava certo, alguma maldição jazia sobre aquele pedaço de mundo.
     Avistaram uma casinha de pedra em meio a uma pequena clareira. Amarram Women do lado da porta.
     — Onde deixei a merda da chave? — Enquanto procurava ele olhava para os lados, como se algo estivesse prestes a pular dentro do círculo de árvores e devorá-los. — Jomps, você está com a chave?!
     — Não... Mas ande logo com isso, até eu estou meio desconfortável aqui.
     — Ha.. ha... ha.. — uma voz baixa e pastosa começou a funcionar — O que vocês tanto temem? Na verdade não existe motivo real para que haja medo... — John estava procurando a chave desesperadamente. Cego de medo, não identificou a origem do som.
     — Eu não costumo falar muito, não? — Era a bruxa que falava, agora encarava os dois. — Mas vocês são tão pobres... Em vários sentidos, só não são tão miseráveis por causa do comércio podre que nutrem! Mas medo de morrer é algo estúpido, morrer é fácil, ter medo disso, é como temer o sol ou a lua. Eles sempre vêm... Agora existem coisas muito piores que a morte, sim, eu lhes digo! Pragas tão terríveis que a morte seria uma benção.
     — ACHEI! — Ele abriu a porta, quase caindo ao fazê-lo, agarrou a mulher e jogou-a lá dentro.A porta bateu com peso de ferro. Passaram cadeados e saíram correndo.
     A pior, com certeza... Eu, Women, aquela que tranquiliza e espalha o amor entre todos. Esse é meu dever e minha vida. Eu, a mesma que já uniu nações em guerra, acabo de promover a discórdia. Eu só queria que você estivesse aqui, Carlile.