domingo, 30 de março de 2014

O deserto sem vento.



O garoto aparentava óbvia ansiedade.

     Deitado na poeira, pensou no pai. Ele não lembrava muito do progenitor, pois o homem partiu quando ele era muito pequeno, em uma época em que ainda havia fartura em sua casa. Isso também fora há muito esquecido, se não pela dura rotina, com certeza por causa da memória de um tempo promissor ser tão perturbadora.
     Ele não gosta dessa vida, é por isso que imagina um mundo onde ele tem poderes mágicos e pode fazer tudo o que quiser. Lá não haveria fome, pois apenas com o estalar de dois dedos abasteceria um grande jantar! Nem haveria tanto trabalho a ser feito, teria servos e possuiria vastas terras. Mas então, ele faria algo que deixaria todos de queixo caído. Iria abandonar seu palácio para viajar pelo mundo, se tornaria um mago andarilho em busca de poder. 
     Sim, a fome e a tristeza eram esquecidas quando o garoto pensava na maravilhosa magia.
 O som de um choro ranhoso interrompeu seus pensamentos. Era sua mãe. Nas noites de lua alta, ela se lembrava do marido, e chorava muitas vezes. A figura sombria e pálida apareceu na porta.
     Ele queria que seu pai morresse, pois assim ela não teria mais que esperar. E imaginou que se isso acontecesse, ela também se mataria. Então viveria sozinho, aí ia fazer o que quisesse, decidira há pouco tempo, que fugir de casa era a única coisa que restava-lhe.
     — Entre moleque! Antes que pegue um resfriado aí fora. — Apesar de fazer muito calor, ela estava com alguns trapos enrolados no pescoço.
     — Eu vou me demorar mais um pouco, depois eu entro. — Mentiu.
     —Não vá ficar ai fora a noite toda. Vou apagar o lampião, cuidado para não esbarrar em nada e me acordar. 
     Ela se virou e obscureceu a única fonte de luz, a não ser bela e presente lua cheia que iluminava o céu.
     
***

     — Entre. — Disse uma voz por trás da porta. Uma fresta de luz saía da casa.
O menino permaneceu imóvel. 
     — Entre, pelos deuses! Antes que eu me arrependa!
Então ele entrou, e viu uma casa poeirenta e toda acabada. Perguntou-se como alguém vivia no meio de tanto pó e sujeira, havia muita madeira velha e alguns potes brilhantes atraíram seu olhar; vidro.
     O velho de nariz adunco espreitou para além da rua, procurando.
     — Você não foi seguido, foi?
     — E seria seguido por quem? Todos estão morrendo nesse pedaço do inferno! Ninguém teria interesse em mim mais do que num monte de merda!
     — Tsc. Garoto, quero viver o resto dos meus dias em paz. Mas talvez antes de morrer possa te ensinar alguma coisa. 
     O velho narigudo trancou a porta e fechou os olhos. Quando ele começou a abrir os olhos, a sala foi ficando escura e, depois de alguns segundos de breu, começou a iluminar-se.
      Aos poucos ele percebeu que não era a sala que ficava mais clara, mas sim que ele abria os olhos. A sala em que estavam agora não era nada parecida com aquela em que ele havia entrado. Agora, uma grande mobília de carvalho cobria uma das paredes, uma mesa retangular com oito cadeiras exibia uma prataria disposta milimetricamente. Na parede oposta elevava-se uma estante de madeira escura que possuía incontáveis livros.
     — Feche essa boca, e antes que pergunte, isso não é bruxaria. É somente uma ilusão. O casebre que viu antes também era outra ilusão. Me diga, qual o seu nome? 
     — Alamore. E o seu?
     — Eu tive vários nomes, mas pode me chamar de Kaiszer. Não estou muito interessado em transformar você num discípulo meu, isso seria muito cansativo. Mas podemos entender algumas coisas básicas.
      Finalmente! Ele pensou. Depois de anos imaginado como seria lidar como magia, o que eu sentiria ao disparar um feitiço... E tudo isso graças a uma galinha idiota! Não... Não, Não foi uma mera coincidência, com certeza os deuses viram que em mim jaz um grande feiticeiro! E agora eu vou me tornar o melhor de todos, e — 
     — EI, garoto, está prestando atenção?! Bom, como dizia, há tempos que não realizo verdadeira mágica, para ser sincero, a última vez foi quando derramei aquela poção em você. Me surpreende que ela tenha funcionado.
     — Como assim? — perguntou Alamore — Você não sabia se aquilo ia funcionar ou não?
     — Exatamente. Em verdade, faz vinte anos que não vejo nada fora do comum acontecer. Tudo estava parado como... como... um deserto sem vento. Até aquele dia que você veio até mim e esse cenário começou a mudar. Digamos que algo ou alguém levantou um pouco de poeira nesse clima estático. 
     O garoto encarava-o lunaticamente.
     — Acho melhor prosseguirmos — arriscou — Me acompanhe.
     O velho o levou para um pouco além da sala onde havia uma estante ainda maior. No centro dessa estante havia uma parte de madeira maciça, com um símbolo talhado. Alamore identificou a representação ali gravada como um carneiro que nascia do fruto de uma árvore. Pensou em perguntar ao velho o que aquilo significava mas não queria interrompê-lo.
      Kaiszer passou o dedo por um dos ornamentos de madeira talhada, revelando uma vareta preta que estava coberta por um tecido com a mesma cor da madeira. Ele enfiou a unha pontiaguda na divisória da vareta e do móvel e puxou-a para cima elevando-a como uma fina alavanca, soltando um discreto CLICK quando ficou completamente ereta. Então ele empurrou-a para baixo até que esta ficasse apenas com alguns centímetros a mostra.
     — Me ajude a empurrar — pediu.
     Alamore colocou ambas as mãos na madeira fria e sentiu o ranger da mesma quando se deslocou alguns centímetro, primeiramente à grande custo, depois seguindo sem que precisasse fazer força. Ela já havia adentrado consideravelmente a estante, quando Alamore fez menção de segui-la e foi impedido pelo velho. Seu olhar pedia paciência. 
     Por alguns segundos nada aconteceu, então um quadrado de chão afundou vagarosamente, até que se revelasse uma porta, que foi aberta por Kaiszer.
     Entraram em um novo ambiente. Se ficara impressionado ao ver alguns potes de vidro durante toda sua vida, Alamore viu um milhar de luzes descortinar-se por inúmeras prateleiras. 
     — Uauuu...
    — É, há tempos eu não via essa cena. Todas essas poções permaneceram apagadas durante um bom tempo, e então, de repente elas se alumiam!
    — E você sabe o que cada uma delas faz? São todas tão úteis quanto aquela que me mostrou? Existe alguma que pode me fazer mais poderoso? 
      És um garoto muito animado para o mundo de sofrimento no qual vives. Donde tiras tamanha esperança? Tu és forte, criança. Mas eu, mesmo no auge do meu poder, teria medo de ti.
     — Kaiszer?
     — Estamos perdendo tempo aqui, vamos voltar. 
     E virou-se sem dizer mais nenhuma palavra.
     Ficaram horas - ou foram dias? - conversando sobre feitiçaria. O velho de nariz adunco, com seu olhar reprovador contava a Alamore histórias de antigos feiticeiros. Muitos antes já haviam passado pela mesma experiência, alguns indiferentes, outros irrequietos, mas nunca tão atenciosos e envolventes como seu atual ouvinte. Ao que parece, não só como utilizar a magia o interessava, mas também aqueles que dela um dia viveram.
     — Bem... Acho que é suficiente. — Finalizou Kaiszer, já aguardando protestos por parte do pequeno.
     — Quando retomaremos?
     — Anh... Bem, tenho algumas tarefas pendentes mas posso conseguir-lhe uma aula amanhã.
     Alamore abriu um sorriso.
     — Eu agradeço. 
     — Agora vá, criança.
     E ele foi.









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