sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A procura



   
     A sede por mágica sempre corrompeu corações. Mágica não é para todo mundo, consulte seu médico antes de utilizar.

     O jovem teve um dia muito conturbado. Foi assim:


     Sua mãe havia lhe pedido para que vendesse algumas galinhas pela cidade. Era uma cidade pequena, quase chegava a ser uma vila. Havia muitos espaços entre as casas, aliás, mais precisamente: casebres. 

     Ele saiu com um carrinho, as galinhas ficavam dentro da gaiola. Ele conhecia os compradores fiéis, então rapidamente vendeu quase todas. Quando faltavam apenas duas galinhas a serem vendidas ele deixou o a gaiola em sua casa, e se dirigiu a cidade; já tinha vendido a todos os conhecidos e até a alguns que não compravam sempre. 

     Resolveu então ir para mais longe de casa, em um lado da cidade que ele não ia muito, apesar dela ser pequena. Finalmente conseguiu vender uma galinha para uma velhinha a qual ele parecia nunca ter visto, mas tudo bem, pois agora faltava apenas uma galinha. 

     Conforme foi andando percebeu o quanto ele não tinha prestado atenção naquela pequena região, apesar de sempre passar por ali quando ia no vilarejo vizinho. Então em sua distração a galinha lhe escapou e começou a correr, não na direção do fim da cidade, mas fugindo pelo meio das casas. 

     Ele começou a correr atrás dela, mas no primeiro obstáculo ela já tomou certa vantagem. Ela voou por cima de um muro alto, e o jovem teve que pegar outro atalho. "Maldita galinha" pensou. 

     Esse logradouro tinha casas mais simples, como se fosse possível diante das outras casas. O garoto estava quase alcançando a galinha quando ela voou por cima de uma escada - o que ele acompanharia facilmente - mas quando ele preparou para dar o salto e pegá-la... "Você é minha"

     Quando estava no ar, uma velha mão, porém extremamente ágil saiu da porta que dava para a escada e agarrou a galinha, entrando furtivamente na casa. O menino se esborrachou em uma carroça que continha estrume do gado.

     Enquanto ele se levantava agradecendo por ter caído em algo macio - apenas nos primeiros instantes antes de perceber - escutou alguém dizendo "Acho que consegui meu almoço".

     "AHHHHHHHHHHHHHHH!!! MAS QUE DROGA!" foi o que a pessoa que estava na casa escutou. Então a porta se abriu a tempo de se ver um garoto cuspindo merda de vaca. Apesar do garoto estar praguejando o velho se inclinou: 

     — Tudo bem garoto? - Arriscou.

     — Tudo bem?! O senhor É LOUCO?! EIIIII, ESPERE, eeessaa galinha é miinnha!!

     — Bom, ela pode ter sido sua, mas agora é minha. E agora, pare de ficar gritando em frente a minha casa.
     O menino encarou-o, incrédulo.
     — É melhor me devolver essa galinha seu velho idiota! — e dizendo isso lançou-se por cima do velho que num instante fechou-lhe a porta na cara, imprimindo na testa do garoto um enorme galo. Ele berrou.
     — AIIIIIII! aiaiai... — apesar de reprimidas à todo custo, lágrimas gordas brotaram de seus olhos. — Me devolve, eu preciso vendê-las senão vou apanhar, senão... senão...
     O velho reabriu a porta timidamente, como quem não tomava para si a culpa dos lamentos da criança. Depois de ouvir vários soluços, ajudou o menino a se levantar.
     — Devolva minha galinha... — este resmungou. 
     — Já disse, ela é o meu jantar, eu peguei-a. Não parece justo? 
     — Justo? — o juvenil agarrou a gola da camisa do velho que era praticamente da sua altura. — justo? O que esse lugar tem de justo?
     — Olha garoto... 
     Ia responder que um velho não tinha mais tanta força para sair caçando, muito menos para trabalhar e arranjar algum ordenado, mas seus olhos cobiçaram um brilho dentro da sua própria manga.
     — O quê? Esse velho está caducando...
     O ancião recuou. 
     — Entre aqui, eu posso dar um jeito nisso. - E dizendo isso ele entrou na casa.

     — Ei? Aonde você vai? Mas que droga.

     Ele se livrou do excesso de adubo, estava prestes a colocar o pé direito dentro da casa quando o velho fez um sinal para que parasse. 

     — Não se atreva; é melhor que não entre. Esqueci que pode sujar a casa. Fique parado aí, já volto.

     Como estava acostumado a seguir ordens ficou onde estava. Alguns minutos depois o velho voltou, o garoto estava limpando-se da melhor forma possível, a sua camisa estava jogada no fim da escada. O homem arquejou:

     — Não tire a camisa! - E antes que o menino respondesse - É mágica.

     — Mágica...? - Os olhos brilharam - Quéquequer dizerrr, mágica mesmo?

     — Sim, ponha a camisa que eu vou demonstrar. - Aparentemente ele ficaria feliz em demonstrar uma arte tão perdida para uma criança, mas não gostou do que viu nos olhos do infanto, já tinha visto aquele olhar em algum lugar.

     O menino parecia hipnotizado. Colocou a camisa suja e esperou ansiosamente.

     O velho revelou um pequeno frasco o qual ele escondia atrás das costas. Com uma mão ele destampou e com a outra ele elevou o frasco e o derramou o líquido em movimentos circulares acima da cabeça do abismado observador. O líquido esfumaçado desceu lentamente, formando arcos em seu trajeto. Era azul brilhante, e estava se difundindo em uma fumaça azul-clara. O velho sentiu como se tivesse levado um minuto inteiro para que os pequenos pontos que sobraram do líquido tocassem o chão.

     — Uuuuaaauuu.... - Disse o jovem enquanto todo o pequeno espetáculo se desenvolvia.

     Percebeu que suas roupas estavam completamente limpas; ele próprio estava cheiroso e limpo!

     — Incrível!! Como você fez isso? AHHH por favor, pode ficar com a galinha, mas ME ENSINE! Me ensine a ser um mago! 

     O velho não respondeu, apenas ficou em silêncio. Sim... Realmente, já havia visto aquele olhar, talvez fosse algo impossível de se esquecer.