sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A guardiã



        O suave som de uma chuva a cair enfeitava o local. Entre árvores e árvores ali estava um pequeno riacho de água cristalina, cintilando aos feixes de luz que se fortaleciam com o passar do tempo.

         Existiam pequenas pedras no local, a maioria delas brancas, estavam acolchoadas a uma grama irregular e verde que dividia sua tarefa de cobrir a terra com plantas pequenas.

         O ar era úmido e o cheiro da terra inundava o ambiente. A luz começava a aparecer com mais força, uma árvore grande, mas não tão grande, cercava o riacho. Iluminavam-se as plantas e pedras fazendo a chuva recuar, e por fim, cessar.

         A harmonia do local era notável, e os movimentos se iniciaram com o vento. O derrubar de folhas, as ondulações na grama. E por fim vários sons pareciam sair do minúsculo chiado do rio. O som de um canto distante, a cantiga de um espírito passageiro. Um espírito que vaga por toda a existência, que sente tudo por onde passa.

         Aos poucos os instrumentos ficariam nítidos para qualquer um; a sinfonia da paz.

         Mas ainda era manhazinha, o orvalho acabara de sair da escuridão da noite. Vapor d’água no ar, indicando que o amanhecer acabara de ocorrer. Fazia frio, mas as plantas pareciam não se incomodar, estavam acostumadas a ficarem ali, esperando intactas.

         Ali se localizava a nascente do maior rio, um lugar totalmente intocável. O máximo perto que uma criatura mágica já chegara perto dali tinha sido um longe tão distante quando as estrelas dos nossos olhos.

         Porém, na margem do projeto de rio, estava uma criança com frio, bebendo a pura água...

         Estava descalça e nua, e, quando ela sentiu que poderia estar atrapalhando, houve uma reviravolta naquele pequeno mundinho, o céu passou de claro para preto, as estrelas lançaram-se no céu, e a lua lhe deu um manto com o qual se cobrir.

         O orvalho se fez confuso com o cessar da luz. E a chuva que se distanciava voltou a cair.

         A criança começou a se molhar, estava abaixada, abraçando as pernas contra o corpo. Não queria ter feito aquilo, não queria estragar nada dali.

         Então ela se lembrou que não estava mais sozinha, finalmente tinha chegado para onde quis fugir sempre. E ali, não se sentia sozinha, pois não teria como ser de outro jeito. Em um quando e onde no qual só existia ela.

         O breve movimento da boca se tornou rapidamente em um sorriso e depois na mais verdadeira e agradável gargalhada. Afinal, estava lá.

         Decidiu continuar ali por toda a eternidade. Tão simples, protegeria o que lhe era mais importante: Sua paz. A paz buscada, que contrastava com tanto sofrimento, o que nunca mais lhe passou pela cabeça, então coube a um profeta dizer:

         —Quando chegar ao paraíso não haverá mais medo, não haverá sofrimento. As mortes presenciadas. O poder de armas cruéis, nas mãos de pessoas mais cruéis. A tristeza eterna, desaparecerá. E lá ela permanecerá. E será apenas ela! Nunca merecerão deixar suas auras impuras sobre tal solo sagrado. Hei de profetizar o maior prazer e eterno júbilo de um ser.

         A moça, sentou-se perante o riacho, olhou em suas águas, e antes de providenciar a anunciação da chegada tão esperada, - mas nem tão reconhecida por todos os mundos – lembrou-se da criança que havia sido. A primeira noite, quando estava confusa. Assustando o orvalho.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Árvore da Vida


        Desde quando Katie e Arthur se mudaram para aquela cidade da Irlanda, eles sempre ficaram admirados com a beleza de um jardim ao lado de sua casa. Eles eram apenas crianças, frutos de um casamento não muito feliz, mas acharam na fraternidade, um grande segredo.
         A grade que separava a casa do imenso jardim era gigante. Mas eles conseguiam observar todo o esplendor do jardim. Com árvores centenárias mostrando o seu poder, porém que eram ridiculamente pequenas comparadas a grande árvore do centro.
A infinita copa da arvore se estendia indefinidamente. Era impossível enxergar o começo das raízes dessa poderosa árvore, só se podia ver que as raízes se ramificavam em todo o planeta, dando origem a cada arvore e planta que ousasse sair da terra.
Ficavam espantados com tamanha onipotência. Porém, era tão estranho. Por que as outras pessoas pareciam não ligar para tão belo lugar?
O ar ao redor do local carregava junto de si uma magia estonteante, porém que era impossível de ser sentida por um ser humano.
A única coisa que Arthur conseguiu ouvir no dia que considerava o dia mais feliz da sua vida, foi o um som de água que parecia vir do centro da imensa floresta.
Até que então, enquanto estavam dormindo, viram seus espíritos sendo forçados a deixarem seus corpos para seguirem uma luz que os buscava. Eles atravessaram a grade e adentraram o jardim. O barulho de água ficou mais alto,  e eles se viram diante de uma pequena fonte.
         Em um ponto distante da grande arvore, uma clareira. Se encontrava os dois espíritos e a fonte rústica. Era feita de pedra e tinha um fluxo de água constante que nunca variava. Escorriam por entre essa enorme pedra, esculpida em vários canais que descendiam do principal; de todos os lados, iam para a floresta e outros iam para dentro do solo.
         E como se vissem um anjo se aproximando, tentaram voltar aos seus corpos. Era uma mulher linda, tinha a pele da cor da terra, os cabelos da cor das florestas e os olhos azuis escuros. E então uma força tão pura quanto à perfeição da natureza inundou seus corpos.
         Não se sabia ao certo quem cuidava daquele jardim. Mas era como se houvesse milhares de jardineiros perfeccionistas cuidando do mesmo.Nunca se viu alguém sair ou entrar pelos portões.
         Até hoje tentam entender o mistério daquele jardim. E hoje, existe a lenda que depois de uma moça desaparecer lá, duas crianças que moravam lá também nunca mais foram vistas.