O suave som de uma chuva a cair enfeitava o
local. Entre árvores e árvores ali estava um pequeno riacho de água cristalina,
cintilando aos feixes de luz que se fortaleciam com o passar do tempo.
Existiam pequenas
pedras no local, a maioria delas brancas, estavam acolchoadas a uma grama
irregular e verde que dividia sua tarefa de cobrir a terra com plantas pequenas.
O ar era úmido e
o cheiro da terra inundava o ambiente. A luz começava a aparecer com mais
força, uma árvore grande, mas não tão grande, cercava o riacho. Iluminavam-se
as plantas e pedras fazendo a chuva recuar, e por fim, cessar.
A harmonia do
local era notável, e os movimentos se iniciaram com o vento. O derrubar de
folhas, as ondulações na grama. E por fim vários sons pareciam sair do
minúsculo chiado do rio. O som de um canto distante, a cantiga de um espírito
passageiro. Um espírito que vaga por toda a existência, que sente tudo por onde
passa.
Aos poucos os
instrumentos ficariam nítidos para qualquer um; a sinfonia da paz.
Mas ainda era
manhazinha, o orvalho acabara de sair da escuridão da noite. Vapor d’água no
ar, indicando que o amanhecer acabara de ocorrer. Fazia frio, mas as plantas
pareciam não se incomodar, estavam acostumadas a ficarem ali, esperando
intactas.
Ali se localizava
a nascente do maior rio, um lugar totalmente intocável. O máximo perto que uma
criatura mágica já chegara perto dali tinha sido um longe tão distante quando
as estrelas dos nossos olhos.
Porém, na margem
do projeto de rio, estava uma criança com frio, bebendo a pura água...
Estava descalça e
nua, e, quando ela sentiu que poderia estar atrapalhando, houve uma reviravolta naquele pequeno mundinho, o céu passou de claro para preto, as estrelas
lançaram-se no céu, e a lua lhe deu um manto com o qual se cobrir.
O orvalho se fez
confuso com o cessar da luz. E a chuva que se distanciava voltou a cair.
A criança começou
a se molhar, estava abaixada, abraçando as pernas contra o corpo. Não queria
ter feito aquilo, não queria estragar nada dali.
Então ela se
lembrou que não estava mais sozinha, finalmente tinha chegado para onde quis
fugir sempre. E ali, não se sentia sozinha, pois não teria como ser de outro
jeito. Em um quando e onde no qual só existia ela.
O breve movimento
da boca se tornou rapidamente em um sorriso e depois na mais verdadeira e
agradável gargalhada. Afinal, estava lá.
Decidiu continuar
ali por toda a eternidade. Tão simples, protegeria o que lhe era mais importante:
Sua paz. A paz buscada, que contrastava com tanto sofrimento, o que nunca mais
lhe passou pela cabeça, então coube a um profeta dizer:
—Quando chegar ao
paraíso não haverá mais medo, não haverá sofrimento. As mortes presenciadas. O
poder de armas cruéis, nas mãos de pessoas mais cruéis. A tristeza eterna,
desaparecerá. E lá ela permanecerá. E será apenas ela! Nunca merecerão deixar
suas auras impuras sobre tal solo sagrado. Hei de profetizar o maior prazer e
eterno júbilo de um ser.
A moça, sentou-se
perante o riacho, olhou em suas águas, e antes de providenciar a anunciação da
chegada tão esperada, - mas nem tão reconhecida por todos os mundos –
lembrou-se da criança que havia sido. A primeira noite, quando estava confusa.
Assustando o orvalho.